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quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Conversa Olimpiana

Quando Zeus entrou no grande salão, Deméter já estava lá. Sentada em seu trono, menor do que as três grandes cadeiras ao seu lado direito, a deusa bebericava um copo de ouro. O rei parou, braços cruzados nas costas, na porta da sala:

- Chegou cedo.
- Eu sei.
- Muito trabalho?
- Sim.
- Acompanho a vida humana pelo meu mensageiro. Ele diz que as coisas não andam bem.
- Ele tem um bom olho para perceber as coisas humanas.

Ele sentou-se no maior trono de todos, deixando um assento vago do lugar onde a Deusa estava. Quando Zeus olhou novamente para Deméter, ela estava de olhos fechados, esfregando a mão nas pálpebras abaixadas. Ele se lembrou de quando a procurou para conceberem Perséfone. Deméter nunca foi a mais bela das deusas, mas a sua maturidade sempre lhe foi atraente, de alguma forma.

- O Inverno está rigoroso demais no Norte e o Verão chuvoso demais no Sul. - Ela disse, tirando-o de seus pensamentos.

Zeus ficou em silêncio por um momento. Deméter olhou, cansada, para o irmão:

- Isso quer dizer que nenhum dos dois hemisférios vai ter alimento suficiente.
- Eu sei. Mas ainda não é cedo demais para o Norte se preocupar com isso?
- Não. Cedo ou tarde, teremos problemas do mesmo jeito.
- Você terá problemas.
- Sim, eu terei problemas.

Ela se irritava quando o irmão dava a entender que humanidade não era de sua responsabilidade. E Ele sabia disso.

Enquanto ignorava o comentário, ela levou a taça de ouro aos lábios novamente. Pela borda, observou Ganymedes aproximar-se de Zeus, com um movimento sutil. Reverenciou o deus e ofereceu-lhe uma taça de ouro, mais suntuosa do que a de Deméter, e serviu o líquido dourado que saía de uma enorme jarra de prata. Foi até a Deusa e ofereceu o mesmo conteúdo. Ela sorriu e lhe entregou a taça vazia.

- Obrigada. É suficiente por hoje.

Deméter levantou-se. Zeus a olhava, voltando a pensar em como poderia deitar-se com Ela novamente, se Deméter permitisse. Ela andou até a beirada de uma das varandas e voltou a falar:

- As comoditties de algumas safras vão aumentar. Acho que Hermes deveria ser avisado.
- Creio que ele já está ciente, mas irei alertá-lo do mesmo jeito.
- Acho que eu e ele teremos muito trabalho para controlar tudo isso.
- Ainda penso que é melhor vocês deixarem os humanos com suas próprias crises.
- Nosso papel é ajudá-los.
- Não é. Nosso papel é deixar que cada elemento de vida se coloque em seu lugar. Às vezes precisamos ser duros para que eles acertem os eixos.
- Eu sei. Talvez você tenha razão.
- Eu tenho razão.
- Por isso você é o Rei dos Deuses e dos Homens.
- Exatamente.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Os filhos do Rei

Hera senta-se no trono e olha a sua volta. Os filhos de Zeus, de seu ventre e do ventre de outras, estão chegando para mais um reunião dos Doze.

Ártemis, acompanhada da mãe, espera pela chegada do irmão. Atena, reclusa e pensativa, como sempre. Hermes, atrasado, provavelmente perdido em algum trabalho.

Ela vê Deméter chegando, trazendo a jovem Perséfone em seu carro. A rainha percorre os olhos pelo salão em busca do Orco. “Ainda não. Chegará ao último segundo, como de costume”.

Hebe está ali, sentada aos seus pés. Sempre sua dama de companhia. Do genro, Héracles, ela não sabe – e também não faz questão de saber. Ela vê Hefesto, seu primogênito, distribuindo presentes aos deuses, e sabe que não será uma das contempladas.

Mas a chegada de outro deus faz com que a Rainha esqueça dos outros filhos: o guerreiro que vem em direção ao trono de Zeus chama a atenção de todo o salão. Recém-chegado, Ares se ajoelha diante do pai, que levanta, abraça o filho e pergunta de suas últimas campanhas. Um ritual, dentre os vários que compõe o conselho dos olimpianos.

Apenas muito tempo depois, quando Deméter já tomou seu lugar e Apollo se juntou às duas mulheres que ama, Ares deixa o pai e vai até a mãe. Ela o recebe com um abraço caloroso e um beijo no rosto. “Meu filho”, pensa Hera, “nascido de um rei, para ser rei”. Ele retribui o abraço e termina a saudação com uma reverência.

- Toda honra à Senhora dos Céus.
- Agradeço a gentileza, meu menino.

Ares parte para encontrar Hebe, irmã querida, que já espera com água para que ele se lave e néctar para que mate a sede. Hera repara, ao longe, o olhar cobiçoso de Afrodite e sorri involuntariamente. “Daria uma bela rainha, minha nora. Pena que casou-se com o filho errado”.

Ela recosta-se no trono, aguardando os últimos chegarem, ainda pensando no belo rei que seu filho seria. E conclui que, se não fosse pelo detalhe da sucessão, viveria muito bem entre as outras esposas de Zeus. Ela não desmerece Leto, assim como não desmereceu Sêmele, nem qualquer outra que tenha se deitado com seu marido. Cada uma tem lá seus encantos. Mas elas precisavam engravidar de meninos? Por que não tiveram meninas, como Deméter ou Leda? O curso da vida dos deuses seria muito mais tranqüilo se as outras esposas de Zeus percebessem que seu filho, o general, é o único capaz de assumir as funções do pai.

O marido toca-lhe o braço e pede sua atenção. Hermes está a postos, os Doze estão em seus lugares. O Conselho vai começar.

Imagem de teenyxtinyxtina

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Das conseqüências do rapto

Dizem que Deméter é inimiga de Aidoneus. Corre, ainda, que Ela não o perdoou pelo suposto rapto de sua filha, e que foi por causa do Senhor dos Mortos que a humanidade quase pereceu.


Nessa horas a Deusa deve pensar que esses humanos, seres amados de Prometeu, não sabem o que falam...

Deo não se zangou com o irmão. Sua ira é, na verdade para outro: o caçula. Ele, Senhor dos Deuses e dos Homens, julgou que poderia usar seu poder de patriarca sem consultá-la. Mas se esqueceu que o universo é dual, e que todo soberano tem sua contraparte na Terra.

Começa com Urano que, apesar de empurrar os filhos para o ventre de Géia, precisava de seu abrigo e de seus ardis. Seu filho, Cronos de curvo pensar, engolidor de deuses, foi o único a se unir e controlar a natureza selvagem dos frutos de Rhea.

Deméter, descendente das deusas da terra, serpente e porca, é a legitimadora do poder dos soberanos, como sua mãe e sua avó foram antes dela. Uma tradição familiar, de força, de matronas, de deusas da terra.

Nada mais natural do que gerar filhos de Zeus e Posseidon. Nada mais natural do que dar sua filha ao Orco, para que fosse coroada sua Rainha.

Mas Zeus se esqueceu disso, ou não se importou. O soberano dos céus não pensou que Deméter, talvez, já soubesse do destino da jovem Koré. E quando a humanidade passou fome, coube a Ele a tarefa de enviar mensageiros para convencer a irmã mais velha de que teria a filha de volta por seis meses. Precisou fazer com que o mundo tivesse sua ordem. Não a original, mas a necessária.


Assim, Aidoneus tem sua noiva, a jovem Koré, que agora é chamada de Perséfone. E Deméter tem a filha ao seu lado - pelo menos por uma parte do ciclo solar.

O único que perdeu foi Zeus. Ele não tem mais a confiança da irmã: desde de o incidente do rapto, ela olha de lado para o Senhor do Olimpo, todas as vezes em que Eles se encontram nos salões celestiais.
Imagens de WRMoore

domingo, 16 de novembro de 2008

Hino Órfico a Zeus

Zeus foi o primeiro, Zeus será o último, o senhor dos relâmpagos,
Zeus é a cabeça, Zeus é o centro, todas as coisas vêm de Zeus.
Zeus nasceu macho, Zeus é virgem imaculada;
Zeus é a base firme da terra e o céu estrelado;
Zeus soberano, Zeus sozinho foi a causa de tudo:
Um poder divino, grande legislador do mundo, O majestosamente formado, envolvendo todas as coisas, Fogo, água, terra, e éter, noite e dia;
Sabedoria, primeira mãe, e deleitoso Amor:
Pelo corpo poderoso de Zeus tudo isso existe. Sua cabeça e belíssima face revela o céu radiante
E em torno dele flutuam as ondas brilhantes,
Os cachos dourados das estrelas cintilantes. Dos dois lados chifres dourados de touro são vistos,
O sol se ergue e se põe, pegadas dos deuses.
Seus olhos o Sol, a Lua é a luz que lhes responde;
Sua mente imortal é o éter, a soberana verdade,
Ele ouve e considera tudo; nem sequer um discurso
Nenhum choro, nem barulho, nem voz nefasta escapa
Do ouvido de Zeus, filho mais poderoso do grande Cronos:
Tal como é sua cabeça imortal, assim é seu pensamento.
Seu corpo radiante, sem limites, impertubável
Em força e poderosos membros que os forma:
Os ombros largos do Deus, o tórax e as costas.
A largura do ar se expande, revelando-se; em ambos
Os lados crescem-lhe asas, e por todo o espaço ele voa.
A Terra é a toda-mãe, com suas sublimes colinas,
Seu sagrado ventre forma; a enchente que incha
De rouco ressonar do Oceano rodeia sua cintura.
Seus pés o chão profundamente enraizado sustenta,
E o lúgubre Tartaros, e as fronteiras longínquas da terra.
Todas as coisas ele esconde, então de seu coração novamente
Em ação bondosa traz de novo à contente e agradável luz.

Hino retirado do fórum Reconstrucionismo Helênico no Brasil
Imagem de
KingVahagan's