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segunda-feira, 13 de julho de 2009

das Filhas de Rhea


























Se os três filhos de Cronos representam o domínio dos monarcas, as três filhas de Rhea nasceram com outro tipo de poder.

Sutil. Escondido. Feminino.

Sentadas no conselho do Olimpo, tecendo juntas em momentos doméstico ou formando a bela figura em banquetes, esse é o papel das filhas: não mandam, mas se sentam ao lado de quem o faz.

Ainda tem seu lugar no Conselho a matrona entre as matronas, Héstia. Mesmo tendo cedido o posto de Olimpiana ao sobrinho Dionísio, ela ainda guarda um lugar de honra. Parece mais velha do que a própria mãe, sentada silenciosa. Ela não se mostra cheia de jóias, nem é trazida aos salões pelo braço de um deus como suas irmãs. Não permitiu que nenhum deles o fizesse, e Zeus não desrespeitou sua vontade. Afinal, esse é seu papel: a união do genos diante da lareira do Olimpo.

Há alguns acentos do Pater, senta-se Deméter, medida entre a serenidade da mais velha e a impetuosidade da irmã subsequente. É mãe sem ser esposa. É rainha sem ter coroa. Os deuses sabem que não é bom perturbá-la e suas maneiras severas são famosas entre os irmãos e sobrinhos e reclamadas sempre que necessário. Não raro, se deixa levar pelos braços do neto três vezes nascido, já que o casamento não é seu território: prefere os filhos - e o doce isolamento entre os humanos.

A caçula entre as mulheres, Senhora do Olimpo, fica ao lado do Rei. Não seria diferente, já que na família o quinhão de Hera é ser esposa. Mais do que mãe, mais do que irmã, ela é a coroa que adorna a cabeça de Zeus, a deusa emplumada que resplande ao seu lado. E graças a Ela, outros casamentos essenciais ao universo se configuram - Perséfone e Hades, Posseidon e Anfitrite, Hércules e Hebe, Afrodite e Hesfesto.

E assim as três participam das grandes decisões. E enquanto eles conversam, as outras gerações, olhando os seis Crônidas, sabem que é ali que reside todo o poder da nova geração de deuses. E que sem um deles, há o desequilíbrio, a fome, a tempestade, o maremoto, a desunião e a morte.

Imagem de andyparkat.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Conversa Olimpiana

Quando Zeus entrou no grande salão, Deméter já estava lá. Sentada em seu trono, menor do que as três grandes cadeiras ao seu lado direito, a deusa bebericava um copo de ouro. O rei parou, braços cruzados nas costas, na porta da sala:

- Chegou cedo.
- Eu sei.
- Muito trabalho?
- Sim.
- Acompanho a vida humana pelo meu mensageiro. Ele diz que as coisas não andam bem.
- Ele tem um bom olho para perceber as coisas humanas.

Ele sentou-se no maior trono de todos, deixando um assento vago do lugar onde a Deusa estava. Quando Zeus olhou novamente para Deméter, ela estava de olhos fechados, esfregando a mão nas pálpebras abaixadas. Ele se lembrou de quando a procurou para conceberem Perséfone. Deméter nunca foi a mais bela das deusas, mas a sua maturidade sempre lhe foi atraente, de alguma forma.

- O Inverno está rigoroso demais no Norte e o Verão chuvoso demais no Sul. - Ela disse, tirando-o de seus pensamentos.

Zeus ficou em silêncio por um momento. Deméter olhou, cansada, para o irmão:

- Isso quer dizer que nenhum dos dois hemisférios vai ter alimento suficiente.
- Eu sei. Mas ainda não é cedo demais para o Norte se preocupar com isso?
- Não. Cedo ou tarde, teremos problemas do mesmo jeito.
- Você terá problemas.
- Sim, eu terei problemas.

Ela se irritava quando o irmão dava a entender que humanidade não era de sua responsabilidade. E Ele sabia disso.

Enquanto ignorava o comentário, ela levou a taça de ouro aos lábios novamente. Pela borda, observou Ganymedes aproximar-se de Zeus, com um movimento sutil. Reverenciou o deus e ofereceu-lhe uma taça de ouro, mais suntuosa do que a de Deméter, e serviu o líquido dourado que saía de uma enorme jarra de prata. Foi até a Deusa e ofereceu o mesmo conteúdo. Ela sorriu e lhe entregou a taça vazia.

- Obrigada. É suficiente por hoje.

Deméter levantou-se. Zeus a olhava, voltando a pensar em como poderia deitar-se com Ela novamente, se Deméter permitisse. Ela andou até a beirada de uma das varandas e voltou a falar:

- As comoditties de algumas safras vão aumentar. Acho que Hermes deveria ser avisado.
- Creio que ele já está ciente, mas irei alertá-lo do mesmo jeito.
- Acho que eu e ele teremos muito trabalho para controlar tudo isso.
- Ainda penso que é melhor vocês deixarem os humanos com suas próprias crises.
- Nosso papel é ajudá-los.
- Não é. Nosso papel é deixar que cada elemento de vida se coloque em seu lugar. Às vezes precisamos ser duros para que eles acertem os eixos.
- Eu sei. Talvez você tenha razão.
- Eu tenho razão.
- Por isso você é o Rei dos Deuses e dos Homens.
- Exatamente.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Os filhos do Rei

Hera senta-se no trono e olha a sua volta. Os filhos de Zeus, de seu ventre e do ventre de outras, estão chegando para mais um reunião dos Doze.

Ártemis, acompanhada da mãe, espera pela chegada do irmão. Atena, reclusa e pensativa, como sempre. Hermes, atrasado, provavelmente perdido em algum trabalho.

Ela vê Deméter chegando, trazendo a jovem Perséfone em seu carro. A rainha percorre os olhos pelo salão em busca do Orco. “Ainda não. Chegará ao último segundo, como de costume”.

Hebe está ali, sentada aos seus pés. Sempre sua dama de companhia. Do genro, Héracles, ela não sabe – e também não faz questão de saber. Ela vê Hefesto, seu primogênito, distribuindo presentes aos deuses, e sabe que não será uma das contempladas.

Mas a chegada de outro deus faz com que a Rainha esqueça dos outros filhos: o guerreiro que vem em direção ao trono de Zeus chama a atenção de todo o salão. Recém-chegado, Ares se ajoelha diante do pai, que levanta, abraça o filho e pergunta de suas últimas campanhas. Um ritual, dentre os vários que compõe o conselho dos olimpianos.

Apenas muito tempo depois, quando Deméter já tomou seu lugar e Apollo se juntou às duas mulheres que ama, Ares deixa o pai e vai até a mãe. Ela o recebe com um abraço caloroso e um beijo no rosto. “Meu filho”, pensa Hera, “nascido de um rei, para ser rei”. Ele retribui o abraço e termina a saudação com uma reverência.

- Toda honra à Senhora dos Céus.
- Agradeço a gentileza, meu menino.

Ares parte para encontrar Hebe, irmã querida, que já espera com água para que ele se lave e néctar para que mate a sede. Hera repara, ao longe, o olhar cobiçoso de Afrodite e sorri involuntariamente. “Daria uma bela rainha, minha nora. Pena que casou-se com o filho errado”.

Ela recosta-se no trono, aguardando os últimos chegarem, ainda pensando no belo rei que seu filho seria. E conclui que, se não fosse pelo detalhe da sucessão, viveria muito bem entre as outras esposas de Zeus. Ela não desmerece Leto, assim como não desmereceu Sêmele, nem qualquer outra que tenha se deitado com seu marido. Cada uma tem lá seus encantos. Mas elas precisavam engravidar de meninos? Por que não tiveram meninas, como Deméter ou Leda? O curso da vida dos deuses seria muito mais tranqüilo se as outras esposas de Zeus percebessem que seu filho, o general, é o único capaz de assumir as funções do pai.

O marido toca-lhe o braço e pede sua atenção. Hermes está a postos, os Doze estão em seus lugares. O Conselho vai começar.

Imagem de teenyxtinyxtina