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sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

O Arqueiro

O Longíncuo prepara o arco. Posiciona a flecha. Tensiosa. Mira. Solta.

Mais um filho de Níobe é abatido. O último.

Ele olha para a irmã. Os letóides não precisam de palavras para se entender. Em um instante, ambos desaparecem das vistas mortais - que se desesperam pela perda de tantos príncipes e princesas. Ártemis vai direto ao encontro da mãe, para reportar-lhe sobre a vingança aplicada aos niobidas. Apollo retorna, sozinho, a Delfos.

Em seus domínios, o deus se lava nas fontes sagradas: não suporta o cheiro de sangue humano impregnado nas suas narinas, mesmo que o líqüido não tenha atingido seu corpo. Dizem que ele sente nojo das pessoas e, por conta desse fator, evita aproximar-se. Mas quem fala dessa forma não percebe que a sujeira e a morte não são parte da sua distante natureza. O deus evita esses fatores e, por conseqüência, quem os traz de forma mais marcante: os seres mortais.

Arqueiros, ensina a sabedoria de Delfos, não têm contato com a carne que apodrece. Eles alvejam os inimigos do alto das muralhas, como ele acabou de fazer. "Sujo de Sangue" é um nome que não pertence a esses soldados. A Infantaria e a Cavalaria existem em outros domínios.

Limpo, o profeta de Zeus coloca uma nova coroa de louros recém-colhidos. Senta-se à sombra das árvores, com a lira em uma das mãos, substituindo o arco prateado. As musas, percebendo o momento propício, aproximam-se com canto e dança. O deus fecha os olhos e sorri, em um de seus não raros momentos de contemplação. Sentado no templo, cuidado por suas companheiras e sacerdotes, Apollo descansa de sua ira calculada e passageira.

Imagem de Roy Mahon, "Archer in Desert"

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Pesadelos divinos

Deuses são deuses, aqui e em qualquer lugar.

Para que possamos reconhecê-los, é necessário que conheçamos suas iconografias. A figura divina muda de contexto, mas permanece com características básicas que permitem seu reconhecimento.

As imagens de deidades assumem, pelos tempos, as formas mais distintas, mas sempre com certos itens que o caracterizam. Por isso é possível olhar um quadro renascentista de um homem com uvas nos cabelos, correndo com sátiros e pensar "Dionísio". Ou olhar um quadro moderno ou contemporâneo e pensar a mesma coisa, se nele estiver retratado um rapaz com uvas nos cabelos em volta de seres míticos.

Como na imagem abaixo, que coloca Ártemis Efesina em um traço moderno e em um contexto completamente inusitado:

Quando bati o olho nessa imagem, chamada Artemis' Nightmare (ou Pesadelo de Ártemis), refleti: "o que poderia ser o pesadelo de Ártemis?". A perda de sua castidade? A falta de seu cortejo? O fim de seu culto? Não sei. Não a conheço o suficiente para deduzir.

Também não me atrevo a arriscar os pesadelos de outra deusa da Anatólia, a kubaba Cybele, que foi retrata perdida em sonhos na obra que faz par com a anterior:

Difícil dizer o que se passa na mente no coração dos deuses. Eles não são mortais, não pensam como tal. Mas podemos imaginar. Quem sabe, assim, conhecemos um pouco mais desse mundo que é tão distante e, ao mesmo tempo, tão próximo ao nosso.

Aproveito e deixo a página de Gurdalkiran, artista que assina essas duas imagens e que faz um lindíssimo trabalho moderno tendo os deuses da Anatólia por base.