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segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Os filhos do Rei

Hera senta-se no trono e olha a sua volta. Os filhos de Zeus, de seu ventre e do ventre de outras, estão chegando para mais um reunião dos Doze.

Ártemis, acompanhada da mãe, espera pela chegada do irmão. Atena, reclusa e pensativa, como sempre. Hermes, atrasado, provavelmente perdido em algum trabalho.

Ela vê Deméter chegando, trazendo a jovem Perséfone em seu carro. A rainha percorre os olhos pelo salão em busca do Orco. “Ainda não. Chegará ao último segundo, como de costume”.

Hebe está ali, sentada aos seus pés. Sempre sua dama de companhia. Do genro, Héracles, ela não sabe – e também não faz questão de saber. Ela vê Hefesto, seu primogênito, distribuindo presentes aos deuses, e sabe que não será uma das contempladas.

Mas a chegada de outro deus faz com que a Rainha esqueça dos outros filhos: o guerreiro que vem em direção ao trono de Zeus chama a atenção de todo o salão. Recém-chegado, Ares se ajoelha diante do pai, que levanta, abraça o filho e pergunta de suas últimas campanhas. Um ritual, dentre os vários que compõe o conselho dos olimpianos.

Apenas muito tempo depois, quando Deméter já tomou seu lugar e Apollo se juntou às duas mulheres que ama, Ares deixa o pai e vai até a mãe. Ela o recebe com um abraço caloroso e um beijo no rosto. “Meu filho”, pensa Hera, “nascido de um rei, para ser rei”. Ele retribui o abraço e termina a saudação com uma reverência.

- Toda honra à Senhora dos Céus.
- Agradeço a gentileza, meu menino.

Ares parte para encontrar Hebe, irmã querida, que já espera com água para que ele se lave e néctar para que mate a sede. Hera repara, ao longe, o olhar cobiçoso de Afrodite e sorri involuntariamente. “Daria uma bela rainha, minha nora. Pena que casou-se com o filho errado”.

Ela recosta-se no trono, aguardando os últimos chegarem, ainda pensando no belo rei que seu filho seria. E conclui que, se não fosse pelo detalhe da sucessão, viveria muito bem entre as outras esposas de Zeus. Ela não desmerece Leto, assim como não desmereceu Sêmele, nem qualquer outra que tenha se deitado com seu marido. Cada uma tem lá seus encantos. Mas elas precisavam engravidar de meninos? Por que não tiveram meninas, como Deméter ou Leda? O curso da vida dos deuses seria muito mais tranqüilo se as outras esposas de Zeus percebessem que seu filho, o general, é o único capaz de assumir as funções do pai.

O marido toca-lhe o braço e pede sua atenção. Hermes está a postos, os Doze estão em seus lugares. O Conselho vai começar.

Imagem de teenyxtinyxtina

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Da Batalha

Ele anda pelos grupos de soldados acampados. O elmo está seguro embaixo do braço, a espada na bainha. A capa vermelha cobre o corpo e o protegeria do frio, se ele o sentisse. O General de Zeus caminha, calmamente, olhando com jeito de lobo. Desconfiado, quieto, introspectivo: é assim que ele reage sob alerta. Como comandante, enquanto os outros comem, bebem e riem, seu papel é centrar-se e ouvir os sinais, sentir a noite, olhar atentamente. Nunca se sabe o que espreita no escuro. Nunca se sabe o guerreiro perfeito pensa nesses momentos.

Por dentro, ele anseia pela batalha. Sua casa é o campo de guerra, sua vida é o sangue manchando a lâmina. Ele não tem outro ofício que não seja lutar. Defender, proteger, dominar, subjugar. Essa é sua vida e sua função no universo. O que seria de países e reis, se não fossem as guerras comandadas por seus generais?

Ele pára, na orla do acampamento, próximo aos sentinelas. Ainda sem o elmo, coloca-se, automaticamente, na postura de general: peito reto, barriga para dentro, mão direita no cabo da espada, cabeça levantada. Olha de cima e vê o acampamento inimigo, iluminado, do outro lado da terra. "Eles não vivem da guerra como nós", pensa. "Para eles é uma grande dor. Não durarão."

Dito e feito. Pela manhã do dia seguinte, o general corre com seu carro pelo campo, acompanhado de Deimos e Fobos, seus inseparáveis companheiros. Enfiando a espada em quem aparece, urrando e sujando a armadura, Ares vence mais uma batalha. Com o gosto de sangue na boca, ele sobe em seu carro e se retira rumo ao Olimpo. O pai espera notícias boas. A mãe espera seu retorno para junto do trono. A mulher, também aguarda, junto à cama.

Imagem de PxMxRxCx