terça-feira, 18 de agosto de 2009

De mudança...

Estamos mudando.

Em breve teremos novidades. Por isso ficaremos um tempo sem atualização.

Abraços.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Tríade

Hécate é a mais jovem. Se mostra como uma dama entre a adolescência e a juventude. Seu rosto é delicado e bonito, emoldurado por cabelos longos, muito escuros, que contrastam com a túnica branca. Tem dois braços, mas três rostos, que olham em direções diferentes - para frente e para os lados, jamais para trás. Em cada uma das mãos carrega uma tocha. Uma tiara de pedras adorna seus cabelos, negros como a noite.

Perséfone é mais velha, mas não tanto assim. Sua roupa é clara e escura, porque os dois tons são parte dela. Transita na penumbra, mas deixa o sol iluminar seu rosto e seu corpo quando sobe ao encontro de sua mãe. Não é muito amiga do Sol, na verdade. Prefere a noite, o escuro e a Lua. Seu rosto não é simples de ser visto, talvez por ser casada com o deus que não se mostra. Mas usa jóias de rainha e prende delicademente o cabelo com uma coroa prateada.

Deméter é a mais velha das três. Tem olhos astutos e cabelos opulentos. É alta e grande, se movimenta com uma certa dureza e com passos firmes. Veste-se de azul e o trigo dourado adorna seus cabelos. Não usa jóias. Evita ocasiões sociais, mas não se importa de rever a família vez ou outra. Prefere o sol à lua, a lagarta à borboleta, o claro ao escuro, o calor ao frio. Anda descalça e não gosta que falem dela. Nem de suas artes. Nem de seu culto.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Hino Órfico à Thethys


Eu lhe chamo Tethys dos olhos de azulado brilho, que se escondem dos humanos por trás de um véu de obscuridade;

Grande imperatriz do Oceano, que vaga pelas profundezas e que molha a terra com sua brisa suave;

Aquela para a qual as ondas abençoadas seguem em sucessão, batendo nos rochedos em um fluxo sem fim:

Deliciando-se no mar sereno a brincar, nos navios que exultam pelo caminho molhado.

Mãe da Cípria e das nuvens obscuras, grande cuidadora das bestas e doadora das fontes de água pura.

Ó venerável Deusa, ouça minha prece e traga a benevolência à minha vida;

Envie, rainha abençoada, aos navios a próspera brisa, e os traga seguros pelos mares tormentosos.


Hino publicado em inglês no Theoi Project.
Tradução livre.
Imagem de waver-h

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Escuro

Ele está sentado no chão. Veste-se inteiro de preto. Sua cabeça esconde-se, coberta com um lenço grosso, deixando o rosto na penumbra.

A recém-iniciada segura a saia e se ajeita ao lado do Escuro, como se fossem velhos amigos. Seu vestido traz as cores de Deméter e os cabelos desalinhados ainda trazem as evidências de terem portado a coroa de trigo da deusa.

No breu à volta deles, ela treme. O medo a domina e ela não entende a razão. O Senhor dos Mortos nunca lhe causou nenhum mal. Pelo contrário, ela só tem a agradecer ao Muito Rico por tudo o que Ele já fez em sua vida.

Ele se vira, bruscamente, e o rosto do Deus está a centímetros do nariz da garota. Mas onde deveria haver olhos, existem dois buracos. No lugar da carne azulada e fria de Hades, o deus mostra ossos. Um crânio, seco e vleho, a olha do véu escuro do Soberano do Submundo.

O medo do desconhecido a toma por inteiro, mas ela não consegue gritar.

Imagem de NathanRosario

terça-feira, 14 de julho de 2009

O Mensageiro

De riso fácil e cheio de galanteios, Hermes tem passagem livre por todos os cantos. Não há Deus que não dê abrigo ao mensageiro, assim como não há homem que não tenha prestado reverência ao Senhor do Caminhos.

Com seu saco de correspondências e sua capa de viagem, ele transita por todas as partes, parando aqui para deixar um recado, ali para elogiar uma ninfa e do outro lado para enganar um viajante. Hermes, de asas nos pés, consegue dobrar a austeridade de Apollo com o mesmo traquejo que vai ao Hades levando as almas de encontro ao Rei dos Mortos e à Sua Rainha.

Mas, acima de tudo, Hermes é o mensageiro de Zeus. Sem ele, não haveria a comunicação entre deuses e homens. E se os homens não ouvem as vozes dos deuses, a culpa não é dele. Os humanos é que não se dão ao trabalho de perceber que os imortais sempre respondem.

E se não o fizerem, o mensageiro trata logo de inventar alguma ladainha para não decepcionar o pedinte. Afinal, seu alimento é o deboche, como ele diz, e sua natureza não o faria perder a oportunidade de exercitar essa arte.

Imagem de h_savill no Flickr.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

das Filhas de Rhea


























Se os três filhos de Cronos representam o domínio dos monarcas, as três filhas de Rhea nasceram com outro tipo de poder.

Sutil. Escondido. Feminino.

Sentadas no conselho do Olimpo, tecendo juntas em momentos doméstico ou formando a bela figura em banquetes, esse é o papel das filhas: não mandam, mas se sentam ao lado de quem o faz.

Ainda tem seu lugar no Conselho a matrona entre as matronas, Héstia. Mesmo tendo cedido o posto de Olimpiana ao sobrinho Dionísio, ela ainda guarda um lugar de honra. Parece mais velha do que a própria mãe, sentada silenciosa. Ela não se mostra cheia de jóias, nem é trazida aos salões pelo braço de um deus como suas irmãs. Não permitiu que nenhum deles o fizesse, e Zeus não desrespeitou sua vontade. Afinal, esse é seu papel: a união do genos diante da lareira do Olimpo.

Há alguns acentos do Pater, senta-se Deméter, medida entre a serenidade da mais velha e a impetuosidade da irmã subsequente. É mãe sem ser esposa. É rainha sem ter coroa. Os deuses sabem que não é bom perturbá-la e suas maneiras severas são famosas entre os irmãos e sobrinhos e reclamadas sempre que necessário. Não raro, se deixa levar pelos braços do neto três vezes nascido, já que o casamento não é seu território: prefere os filhos - e o doce isolamento entre os humanos.

A caçula entre as mulheres, Senhora do Olimpo, fica ao lado do Rei. Não seria diferente, já que na família o quinhão de Hera é ser esposa. Mais do que mãe, mais do que irmã, ela é a coroa que adorna a cabeça de Zeus, a deusa emplumada que resplande ao seu lado. E graças a Ela, outros casamentos essenciais ao universo se configuram - Perséfone e Hades, Posseidon e Anfitrite, Hércules e Hebe, Afrodite e Hesfesto.

E assim as três participam das grandes decisões. E enquanto eles conversam, as outras gerações, olhando os seis Crônidas, sabem que é ali que reside todo o poder da nova geração de deuses. E que sem um deles, há o desequilíbrio, a fome, a tempestade, o maremoto, a desunião e a morte.

Imagem de andyparkat.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Branco


Andávamos na beira, naquele ponto da praia em que as ondas quebram deixando restos de conchas e outras coisas que o mar dispensa. Eu pensava na vida. Ele segurava minha mão e caminhava apressado. Depois de um curto silêncio, me faz uma pergunta mais do que inesperada:


- Mas como é que que Ela nasce?

A "Ela" da frase é Afrodite.

Ele é a própria figura da deusa, aparecendo como um presente enviado pela Dourada. Ele traz na sua formação sombra e luta, permeadas do perfume das orquídeas, planta consagrada a Urano, cujo membro decepado fez a deusa surgir do mar.

É essa a história que conto, enquanto caminhamos pela areia.

Falo da minha versão preferida, a registrada por Hesíodo - inspirada pelas musas, transmitida pelo povo, como gosto de lembrar para mim mesa. Sob o céu escuro de chuva, conto como Cronos, com sua foice em curva, amputou o pênis de Urano. Falo, ainda, do pênis caindo nas ondas e ejaculando seu sêmen sobre a espuma. Imagino a subida de Afrodite nesse momento, de sua criação na mistura dos brancos, ao mesmo tempo em que, ao seu lado, Nêmesis surge do vermelho sangue. Em todo seu esplendor, a Citeréia é levada em uma concha para a ilha mais próxima, acolhida pelas Graças e por Eros, compondo assim um cortejo de beleza, de doçura e de amargor.

As ondas quebram nos nosso pés. Ele olha para o horizonte. Eu digo que existe outra história, a de que Ela seria filha de Zeus e Dione, a imagem feminina do Tonante.

- Mas isso não é verdade.
- Como você sabe?
- Zeus me contou um dia desses.

Imagem de Noel back in Zurich.
Retirado do Flickr.

p.s.: O Blogger está com problema. Por isso o texto desta postagem pode aparecer com mais de uma fonte.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Voltando

Peço desculpas pelo tempo sem atualizações.
A vida me engoliu e, infelizmente, deixei de lado este blog.
Volto a aparecer por aqui.

Aproveitando a ocasião, acrescentei no Blogroll alguns sites que fizeram a gentileza de nos linkar: Stregheria Pratica, Cerealia e Helenismo: Tradição, Postura e Ética. Muito obrigada pela lembrança.

Com as bênçãos de Rhea Cibele e Perséfone.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Conversa Olimpiana

Quando Zeus entrou no grande salão, Deméter já estava lá. Sentada em seu trono, menor do que as três grandes cadeiras ao seu lado direito, a deusa bebericava um copo de ouro. O rei parou, braços cruzados nas costas, na porta da sala:

- Chegou cedo.
- Eu sei.
- Muito trabalho?
- Sim.
- Acompanho a vida humana pelo meu mensageiro. Ele diz que as coisas não andam bem.
- Ele tem um bom olho para perceber as coisas humanas.

Ele sentou-se no maior trono de todos, deixando um assento vago do lugar onde a Deusa estava. Quando Zeus olhou novamente para Deméter, ela estava de olhos fechados, esfregando a mão nas pálpebras abaixadas. Ele se lembrou de quando a procurou para conceberem Perséfone. Deméter nunca foi a mais bela das deusas, mas a sua maturidade sempre lhe foi atraente, de alguma forma.

- O Inverno está rigoroso demais no Norte e o Verão chuvoso demais no Sul. - Ela disse, tirando-o de seus pensamentos.

Zeus ficou em silêncio por um momento. Deméter olhou, cansada, para o irmão:

- Isso quer dizer que nenhum dos dois hemisférios vai ter alimento suficiente.
- Eu sei. Mas ainda não é cedo demais para o Norte se preocupar com isso?
- Não. Cedo ou tarde, teremos problemas do mesmo jeito.
- Você terá problemas.
- Sim, eu terei problemas.

Ela se irritava quando o irmão dava a entender que humanidade não era de sua responsabilidade. E Ele sabia disso.

Enquanto ignorava o comentário, ela levou a taça de ouro aos lábios novamente. Pela borda, observou Ganymedes aproximar-se de Zeus, com um movimento sutil. Reverenciou o deus e ofereceu-lhe uma taça de ouro, mais suntuosa do que a de Deméter, e serviu o líquido dourado que saía de uma enorme jarra de prata. Foi até a Deusa e ofereceu o mesmo conteúdo. Ela sorriu e lhe entregou a taça vazia.

- Obrigada. É suficiente por hoje.

Deméter levantou-se. Zeus a olhava, voltando a pensar em como poderia deitar-se com Ela novamente, se Deméter permitisse. Ela andou até a beirada de uma das varandas e voltou a falar:

- As comoditties de algumas safras vão aumentar. Acho que Hermes deveria ser avisado.
- Creio que ele já está ciente, mas irei alertá-lo do mesmo jeito.
- Acho que eu e ele teremos muito trabalho para controlar tudo isso.
- Ainda penso que é melhor vocês deixarem os humanos com suas próprias crises.
- Nosso papel é ajudá-los.
- Não é. Nosso papel é deixar que cada elemento de vida se coloque em seu lugar. Às vezes precisamos ser duros para que eles acertem os eixos.
- Eu sei. Talvez você tenha razão.
- Eu tenho razão.
- Por isso você é o Rei dos Deuses e dos Homens.
- Exatamente.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

O Arqueiro

O Longíncuo prepara o arco. Posiciona a flecha. Tensiosa. Mira. Solta.

Mais um filho de Níobe é abatido. O último.

Ele olha para a irmã. Os letóides não precisam de palavras para se entender. Em um instante, ambos desaparecem das vistas mortais - que se desesperam pela perda de tantos príncipes e princesas. Ártemis vai direto ao encontro da mãe, para reportar-lhe sobre a vingança aplicada aos niobidas. Apollo retorna, sozinho, a Delfos.

Em seus domínios, o deus se lava nas fontes sagradas: não suporta o cheiro de sangue humano impregnado nas suas narinas, mesmo que o líqüido não tenha atingido seu corpo. Dizem que ele sente nojo das pessoas e, por conta desse fator, evita aproximar-se. Mas quem fala dessa forma não percebe que a sujeira e a morte não são parte da sua distante natureza. O deus evita esses fatores e, por conseqüência, quem os traz de forma mais marcante: os seres mortais.

Arqueiros, ensina a sabedoria de Delfos, não têm contato com a carne que apodrece. Eles alvejam os inimigos do alto das muralhas, como ele acabou de fazer. "Sujo de Sangue" é um nome que não pertence a esses soldados. A Infantaria e a Cavalaria existem em outros domínios.

Limpo, o profeta de Zeus coloca uma nova coroa de louros recém-colhidos. Senta-se à sombra das árvores, com a lira em uma das mãos, substituindo o arco prateado. As musas, percebendo o momento propício, aproximam-se com canto e dança. O deus fecha os olhos e sorri, em um de seus não raros momentos de contemplação. Sentado no templo, cuidado por suas companheiras e sacerdotes, Apollo descansa de sua ira calculada e passageira.

Imagem de Roy Mahon, "Archer in Desert"

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Encruzilhada


- Há três caminhos possíveis? Qual você vai seguir?

A deusa com olhos de cão pergunta ao viajante. Como uma estátua que marca o fim - que ao mesmo tempo é o começo - da estrada, a tríplice deusa da Lua porta suas tochas e indaga, calmamente, ao homem parado há sua frente.

Ele, nervoso, trança as mãos. Sua mala está no chão, seu chapéu voou com o vento da noite. Mas, para a deusa, nada disso importa. O nervosismo, o cansaço, a fome... meros detalhes humanos. Ela também não está preocupada com o tempo que o homem levará para escolher. Há tantas e tantas Luas, há tantos ciclos do Sol ela faz a mesma pergunta, para as mais diferentes pessoas, que já não importa mais o tempo que elas demoram para responder.

A tríplice continua olhando para o homem, sem expressão. Ele consegue ver bem as três estradas que se abrem à sua frente, por conta da iluminação das tochas dela.

- Qual a senhora acha que eu devo seguir?
- Nenhum. Fique parado aqui até Thanatos buscar sua alma.

Ele treme. Ela sabe que não é de frio. É assustador, para qualquer viajante que passe por ali, pensar em ficar mais do que o necessário à frente da titânide. Eles sentem um frio imenso, uma insegurança terrível e um medo da noite que não é explicável pelas vias normais das palavras.

Impassível, imóvel, ela espera.

Imagem sem crédito

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Os filhos do Rei

Hera senta-se no trono e olha a sua volta. Os filhos de Zeus, de seu ventre e do ventre de outras, estão chegando para mais um reunião dos Doze.

Ártemis, acompanhada da mãe, espera pela chegada do irmão. Atena, reclusa e pensativa, como sempre. Hermes, atrasado, provavelmente perdido em algum trabalho.

Ela vê Deméter chegando, trazendo a jovem Perséfone em seu carro. A rainha percorre os olhos pelo salão em busca do Orco. “Ainda não. Chegará ao último segundo, como de costume”.

Hebe está ali, sentada aos seus pés. Sempre sua dama de companhia. Do genro, Héracles, ela não sabe – e também não faz questão de saber. Ela vê Hefesto, seu primogênito, distribuindo presentes aos deuses, e sabe que não será uma das contempladas.

Mas a chegada de outro deus faz com que a Rainha esqueça dos outros filhos: o guerreiro que vem em direção ao trono de Zeus chama a atenção de todo o salão. Recém-chegado, Ares se ajoelha diante do pai, que levanta, abraça o filho e pergunta de suas últimas campanhas. Um ritual, dentre os vários que compõe o conselho dos olimpianos.

Apenas muito tempo depois, quando Deméter já tomou seu lugar e Apollo se juntou às duas mulheres que ama, Ares deixa o pai e vai até a mãe. Ela o recebe com um abraço caloroso e um beijo no rosto. “Meu filho”, pensa Hera, “nascido de um rei, para ser rei”. Ele retribui o abraço e termina a saudação com uma reverência.

- Toda honra à Senhora dos Céus.
- Agradeço a gentileza, meu menino.

Ares parte para encontrar Hebe, irmã querida, que já espera com água para que ele se lave e néctar para que mate a sede. Hera repara, ao longe, o olhar cobiçoso de Afrodite e sorri involuntariamente. “Daria uma bela rainha, minha nora. Pena que casou-se com o filho errado”.

Ela recosta-se no trono, aguardando os últimos chegarem, ainda pensando no belo rei que seu filho seria. E conclui que, se não fosse pelo detalhe da sucessão, viveria muito bem entre as outras esposas de Zeus. Ela não desmerece Leto, assim como não desmereceu Sêmele, nem qualquer outra que tenha se deitado com seu marido. Cada uma tem lá seus encantos. Mas elas precisavam engravidar de meninos? Por que não tiveram meninas, como Deméter ou Leda? O curso da vida dos deuses seria muito mais tranqüilo se as outras esposas de Zeus percebessem que seu filho, o general, é o único capaz de assumir as funções do pai.

O marido toca-lhe o braço e pede sua atenção. Hermes está a postos, os Doze estão em seus lugares. O Conselho vai começar.

Imagem de teenyxtinyxtina

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Das conseqüências do rapto

Dizem que Deméter é inimiga de Aidoneus. Corre, ainda, que Ela não o perdoou pelo suposto rapto de sua filha, e que foi por causa do Senhor dos Mortos que a humanidade quase pereceu.


Nessa horas a Deusa deve pensar que esses humanos, seres amados de Prometeu, não sabem o que falam...

Deo não se zangou com o irmão. Sua ira é, na verdade para outro: o caçula. Ele, Senhor dos Deuses e dos Homens, julgou que poderia usar seu poder de patriarca sem consultá-la. Mas se esqueceu que o universo é dual, e que todo soberano tem sua contraparte na Terra.

Começa com Urano que, apesar de empurrar os filhos para o ventre de Géia, precisava de seu abrigo e de seus ardis. Seu filho, Cronos de curvo pensar, engolidor de deuses, foi o único a se unir e controlar a natureza selvagem dos frutos de Rhea.

Deméter, descendente das deusas da terra, serpente e porca, é a legitimadora do poder dos soberanos, como sua mãe e sua avó foram antes dela. Uma tradição familiar, de força, de matronas, de deusas da terra.

Nada mais natural do que gerar filhos de Zeus e Posseidon. Nada mais natural do que dar sua filha ao Orco, para que fosse coroada sua Rainha.

Mas Zeus se esqueceu disso, ou não se importou. O soberano dos céus não pensou que Deméter, talvez, já soubesse do destino da jovem Koré. E quando a humanidade passou fome, coube a Ele a tarefa de enviar mensageiros para convencer a irmã mais velha de que teria a filha de volta por seis meses. Precisou fazer com que o mundo tivesse sua ordem. Não a original, mas a necessária.


Assim, Aidoneus tem sua noiva, a jovem Koré, que agora é chamada de Perséfone. E Deméter tem a filha ao seu lado - pelo menos por uma parte do ciclo solar.

O único que perdeu foi Zeus. Ele não tem mais a confiança da irmã: desde de o incidente do rapto, ela olha de lado para o Senhor do Olimpo, todas as vezes em que Eles se encontram nos salões celestiais.
Imagens de WRMoore

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Lamia nas mãos da Sibila - Mythology Sinchroblog
























A Sibila trouxe uma pequena imagem e colocou-a no altar. Ficou ali, apoiada em uma pedra, junto aos deuses do Submundo.

Era estranha.

Retratava um mostro, metade mulher metade dragão. Sua cauda era roxa, sua boca era vermelha. Não possuía cabelos. Os olhos brilhavam.

Ficou na toalha vermelha, como que guardando o relicário de Perséfone. Se mesclou rapidamente com as outras, integrou-se em harmonia com os seres que existiam ali, naquele momento em que todos os deuses foram lembrados.

Mas todos se perguntaram: porque Lamia veio pelas mãos da Sibila?

Um mito antigo nos conta que uma das vozes de Apollo, a Sibila Herophile, era filha de Lamia, nascida antes que a Rainha do Olimpo fizesse surgir o monstro no corpo da mulher.

A rainha da Lybia, a amante de Zeus Pai, não era ainda uma devoradora de crianças quando sua filha nasceu. Não era uma caçadora da noite.

A Sibila, que serve à Luz, trouxe uma pequena lembrança de sua ancestralidade à tona. Uma fagulha do instinto, do labirinto, da serpente que habita escura até nos mais claros dias de Sol.

Trouxe uma deusa à mais. Uma amante a mais. Um único monstro no altar habitado por Olimpianos e consortes e filhos.

Quem sabe, com esse pequeno agrado, a vampira poupe nossas crianças...

Imagem: Lamia, de Octonomoes

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Mythology Synchroblog - Monstros

I will participate on Mythology Syncrhoblog. I got it from The Old an New Moons. I let here my excuses for english speakers, but I made a decision to put this in potugueses, because it is my language. But you can traslate with the Google tool in the sidebar.

Vou participar do Mythology Synchroblog. Na verdade, é uma brincadeira - um tipo de meme - organizado pelo The Old And New Moons. Consiste em fazer posts sincronizados seguindo um mesmo tema.

O prazo das postagens será no dia 1º de dezembro. Está aberto para os autores de blogs sobre mitologia e paganismo. As regras são: fazer um post sobre o tema até o dia agendado, linkar os outros participantes e avisar os outros.

O tema deste Synchroblog é "Monstros míticos e entidades do Outro Mundo". Os outros blogs que estão participando são:

Aquila ka Hecate
Paleothea: the Ancient Goddess
Pitch313
The Dance of the Elements
Bubo’s Blog
When Isis Rises
The Old and New Moons

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Tecendo o Destino

Elas tecem. Sempre. Desde o princípio dos tempos. Infinitamente.
Todos os fios, de todas as vidas, passam pelas mãos das três filhas de Themis.
Ou seriam filhas de Nyx?
Ou, ainda, descendentes de Ananké - a necessidade inominável?

Nada passa indiferente às senhoras do Destino, pois tudo é parte do fio. As minúsculas partículas de amor e ódio, alimentadas por vidas e vidas... as tristezas, as alegrias, as mortes, os nascimentos, os casamentos e os abandonos - todos! - são tecidos pelos dedos ágeis, acostumado com o trabalho essencialmente feminino de passar a lã pela roca.

Continuarão fazendo, mesmo que Zeus caia. Mesmo que Cronos retorne, ou que alguma profecia antiga se concretize. Elas continuam e continuarão a tecer. Indiferentes a tudo e, ao mesmo tempo, cientes de tudo.

As Moirae tecem enquanto falam. Ou tecem caladas. Vestidas de negro, ou de branco. Não se sabe ao certo. Elas se escondem no fundo de uma caverna, na mente de um louco, na ilustração de um arcano de tarot. Sempre diferentes, mas sempre três tecelãs. A velha, a moça, a jovem.

Tecendo sempre. Incansáveis. Fiando o destino dos Deuses e dos homens.

A foto "Lebanese Women Standing Above Destroyed Beirut"
é de autoria do fotógrafo
Alain DeJean

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Visita noturna

A deusa entrou vestida com um branco reluzente, que espalhava brilho por todo o quarto. O cabelo negro, preso à moda romana, também brilhava - como se o luar estivesse iluminando-o permanentemente. Ela sentou-se na beira da cama. Seu rosto era sério e sua voz era etérea:

- Eu sou Diana.

A garota, entre o sono e a consciência, ficou confusa e perdida. "Porque Diana viria a mim?", ela pensou. A deusa da Lua e das feiticeiras, tão mal entendida e confudida, procurando alguém que não olha as Luas Cheias e não corre pelas florestas?

A deusa não se importou com os questionamentos. Talvez porque não foram feitos em voz alta. Seguiu falando, indiferente. Terminou a preleção dizendo que a garota deveria avisar sobre a sua visita.

A moça não sabe o que aconteceu depois. Dormiu, mas não profundamente. Acordou diversas vezes, no escuro, lembrando-se de pequenos trechos da fala e do cabelo iluminado de Diana.

A primeira atitude que tomou, na manhã do dia seguinte, foi procurar meios de dar o recado. Feito.

A deusa não mais apareceu.

Imagem da galeria de kdm042 no Flickr

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Leituras I - "O Livro de Ouro da Mitologia"

Todo mundo precisa começar de algum lugar. Uma opção, para quem pretende iniciar um estudo, é "O Livro de Ouro da Mitologia", de Thomas Bullfinch. Não é a obra definitiva sobre o assunto. Mas é uma fonte razoável e acessível.

Há uma certa polêmica em torno do autor, porque ele escreve como todo estudioso vitoriano, chegando ao ponto de usar as expressões "maravilhas falsas" e "religião obsoleta" (página 12), no prefácio da obra, para se referir as crenças gregas. Mas quem possuí um mínimo de discernimento e censo crítico, e que esteja familiarizado com o contexto histórico e social no qual essa obra foi escrita, consegue tirar proveito de uma boa parte das informações.

A pesquisa é, sem dúvida, extensa. Não podemos dizer o mesmo da profundida, pois Bullfinch se contenta em relatar o mito, sem analisá-lo de nenhuma forma. Sua idéia é a de um livro de referências rápidas a temas mitológicos, para ser consultado por quem não consegue compreender o que alguns poetas qda época escreveram em referência a personagens e divindades gregas.

Creio que seja um bom começo para quem está partilhando desse mundo agora. Mas vai soar enfadonho para os que já se aventuram a mais tempo.

Um ponto a favor deste livro é a facilidade de encontrá-lo. A edição mais luxuosa está disponível em bibliotecas públicas e acadêmicas. A edição de bolso, publicada pela Martin Claret, pode ser comprada em várias livrarias e até em boas bancas de jornal. Há também versões para download. Com uma rápida busca no Google é possível encontrar várias, já que é uma obra de domínio público.

Este é o primeir post de uma série de resenhas. "O Livro de Ouro" foi escolhido para inaugurá-la pois pode constituir um ponto de partida para estudos mais profundos.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Leite e serpentes
























Leite que alimentou Zeus em Creta.
Leite que a Bona Dea verte dos seios.
Leite de cabra, vaca e porca.

Coloque leite num prato, de barro, junto à terra.
As serpentes de Rhea virão bebê-lo.
Só tenha cautela
porque serpentes são pessonhentas.

Elas não envenenam suas semelhantes,
não prejudicam quem também anda junto à terra,
quem sente o frio do chão,
e o úmido da noite.

Mas quem não entende seus mitérios,
e não compartilha de suas escamas,
deve ter cautela com os chocalhos
e com os sibilares das línguas.

Serpentes não perdoam.

Imagem de Garden of Bad Things