
Andávamos na beira, naquele ponto da praia em que as ondas quebram deixando restos de conchas e outras coisas que o mar dispensa. Eu pensava na vida. Ele segurava minha mão e caminhava apressado. Depois de um curto silêncio, me faz uma pergunta mais do que inesperada:
- Mas como é que que Ela nasce?
A "Ela" da frase é Afrodite.
Ele é a própria figura da deusa, aparecendo como um presente enviado pela Dourada. Ele traz na sua formação sombra e luta, permeadas do perfume das orquídeas, planta consagrada a Urano, cujo membro decepado fez a deusa surgir do mar.
É essa a história que conto, enquanto caminhamos pela areia.
Falo da minha versão preferida, a registrada por Hesíodo - inspirada pelas musas, transmitida pelo povo, como gosto de lembrar para mim mesa. Sob o céu escuro de chuva, conto como Cronos, com sua foice em curva, amputou o pênis de Urano. Falo, ainda, do pênis caindo nas ondas e ejaculando seu sêmen sobre a espuma. Imagino a subida de Afrodite nesse momento, de sua criação na mistura dos brancos, ao mesmo tempo em que, ao seu lado, Nêmesis surge do vermelho sangue. Em todo seu esplendor, a Citeréia é levada em uma concha para a ilha mais próxima, acolhida pelas Graças e por Eros, compondo assim um cortejo de beleza, de doçura e de amargor.
As ondas quebram nos nosso pés. Ele olha para o horizonte. Eu digo que existe outra história, a de que Ela seria filha de Zeus e Dione, a imagem feminina do Tonante.
- Mas isso não é verdade.
- Como você sabe?
- Zeus me contou um dia desses.
Imagem de Noel back in Zurich.
Retirado do Flickr.
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